QUE ou O QUAL?

Para não repetir determinadas palavras (uma preocupação às vezes exagerada), é muito frequente encontrar em textos o emprego de O QUAL e suas flexões (os quais, a qual, as quais) em lugar de QUE.

Quando empregar adequadamente um e outro?

Vejamos.

O QUAL

Pode-se empregar o qual (e suas flexões) em dois contextos:

1) Quando precedido de uma preposição ou de  locução prepositiva. Exemplos:

Levou consigo apenas objetos sem os quais não poderia sobreviver. (preposição “sem”)

Várias autoridades às quais foram dirigidas perguntas preferiram calar-se. (preposição “a”, que se contraiu com o “a” do pronome)

A morte é um tema sobre o qual deveríamos refletir. (proposição “sobre”).

Os amigos com os quais costumas sair estão te aguardando. (preposição “com”)

Tudo aconteceu naquele encontro durante o qual houve inúmeros desentendimentos. (preposição “durante”)

É um sábio perante o qual deveríamos nos curvar. (preposição “perante”)

São recipientes de barro dentro dos quais eram conservados os alimentos. (locução prepositiva “dentro de”)

É um assunto a respeito do qual não gostaria de conversar. (locução prepositiva “a respeito de”)

 2) Quando  há necessidade de identificar com clareza o antecedente, ou seja, para evitar possíveis ambiguidades, como na frase abaixo:

Refiro-me à situação das escolas públicas, que todos conhecemos bem.

Conhecemos bem a situação ou as escolas públicas?

Desfazendo a ambiguidade:

Refiro-me à situação das escolas públicas, a qual todos conhecemos bem. (se a referência for “situação”).

Refiro-me à situação das escolas públicas, as quais todos conhecemos bem. (se a referência for “escolas públicas”).

QUE

Dá-se preferência a que em todos os demais contextos em que não ocorre a preposição.

Não se aconselham, por exemplo, empregos como os seguintes:

*Terminei de ler o livro o qual você me emprestou.

É mais adequado: Terminei de ler livro que você me emprestou.

Observação: Mesmo havendo preposição, em muitos casos, também é possível empregar QUE. Exemplos:

O time pelo qual torço está classificado.

Ou: O time por que torço está classificado.

As frutas das quais eu mais gosto têm um preço elevado.

Ou: As frutas de que eu mais gosto têm um preço elevado.

DICA:

Estilisticamente, é preferível repetir QUE (uma espécie de curinga) a empregar O QUAL (e suas flexões) sem que o contexto linguístico o exija.

Nós mesmos ou nós mesmo?

A dúvida:

Mudar depende de nós mesmos ou de nós mesmo?

Resposta correta: Mudar depende de nós mesmos.

Por quê?

Porque “mesmo”, nesse contexto, tem uma função adjetiva e como tal deve concordar em gênero e número com o pronome que o antecede. Exemplos:

Mudar depende de ele mesmo; … de elas mesmas; … de tu mesmo ou de tu  mesma (se a referência for feminina) ; … de  vocês mesmos ou de vocês mesmas (se a referência for feminina) .

Nós mesmos (ou nós mesmas) fizemos todo o planejamento. Ele mesmo (ou Ela mesma) fez todo o planejamento. Eu mesmo ou eu mesma, etc.

Nesse sentido, equivale a “próprio”; é usado como um reforço à identificação feita pelo pronome que o antecede. Poderíamos perfeitamente dizer apenas mudar depende de nós, ou nós fizemos todo o planejamento, etc,  mas não teríamos a mesma ênfase.

 Quando MESMO fica invariável?

Quando empregado em duas outras funções:

  • Na função de advérbio, equivalendo a até, que pode denotar uma espécie de limite ou inclusão. Exemplos:

Mesmo as pessoas que se diziam amigas agora lhe viram o rosto.

Mesmo seus irmãos o abandonaram.

  • Na função de conjunção concessiva, equivalendo a embora, ainda que. Exemplos:

Mesmo derrotados, mostraram-se satisfeitos. = Embora derrotados, mostraram-se satisfeitos.

Quarentena de 14 dias?

Embora a palavra quarentena remeta, mais comumente, à ideia de “quarenta”, soando um pouco estranhas combinações como “quarentena de 14 dias”, há muito tempo passou a assumir outros significados. De origem não exatamente definida (provavelmente, do Francês quarentaine, por volta de 1180-1190), foi inicialmente empregada para designar um período de 40 dias.  Há registros de que, por volta de 1635, já era usada com sentido de “período de isolamento de quarenta dias imposto aos viajantes para evitar a disseminação de doenças contagiosas”.

No entanto, uma busca a um dicionário (aqui Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa) nos fornece vários significados, entre outros os seguintes:

  1. Porção ou número de quarenta coisas (Mandou comprar uma quarentena de presentes de Natal); 2. Conjunto de medidas e restrições que consistia especialmente no isolamento, durante certo tempo (na origem 42 dias), de indivíduos ou mercadorias provenientes de regiões onde grassavam epidemias de doenças contagiosas; 3. por ext., conjunto de restrições e/ou isolamento por períodos de tempo variáveis, impostos a indivíduos ou cargas procedentes de países em que ocorrem epidemias de doenças contagiosas; 4. fig.  Isolamento de algo ou suspensão de um processo; ato de adiar  (Pôs os poema de quarentena  antes de decidir se iria publicá-lo).

Percebe-se, assim, que embora em alguns usos a palavra ainda esteja ligada à ideia de “quarenta” coisas ou indivíduos, em outros, o sentido de conjunto de restrições e isolamento se sobrepôs à significação inicial.  É dessa forma que podemos dizer quarentena de 14, 18 ou, seja lá qual for o período, sem constrangimento.

Vale  aqui lembrar que as línguas não são estáticas. Evoluem com o tempo pelo uso que fazemos delas. Suas unidades mais concretas, as palavras, evoluem tanto na forma quanto na significação, porque são como esponjas que absorvem do social sua substância. Em relação à sua significação, as palavras podem manter relação com o sentido original (o etimológico), mas com o passar do tempo também vão assumindo outras significações. A palavra “quarentena” é um bom exemplo, porque em alguns contextos guarda a memória de “quarenta”, em outros não mais.

Haja vista ou haja visto?

Haja vista é uma locução invariável, empregada no sentido de Veja, leve-se em conta, considere-se. Exemplo:

A crise econômica ainda é grave, haja vista os altos índices de desemprego.

Mas há duas outras possibilidades, embora menos usuais:

  1. Com o substantivo precedido de preposição a. Exemplo:
    Haja vista às questões sociais. Haja vista aos problemas.
  2. Ainda menos comum, porém possível, temos a locução Haja em vista, empregada no sentido de Tenha-se em vista, vise-se. Exemplo:
    É inocente, haja em vista a argumentação do advogado.

Consequentemente, com os sentidos acima, seria um erro empregar haja visto.

Quando, então, pode-se empregar haja visto?

Haja visto é uma locução verbal formada pelo verbo auxiliar haver  na 1.ª ou na 3.ª pessoa do singular do presente do subjuntivo (haja), mais o particípio do verbo principal ver (visto). Mas esta estrutura verbal é pouco utilizada, sendo mais comum a locução verbal formada com o verbo auxiliar ter: tenha visto.

Exemplo:

Suponho que ela haja visto o filme com as amigas. (= Suponho que ela tenha visto o filme com as amigas).

Portanto, só está correto o uso de haja visto, quando é possível a substituição por tenha visto.

Retaliar e retalhar

Trata-se de duas palavras homófonas, isto é, de duas palavras de pronúncia semelhante, porém de significados diferentes, uma vez que têm etimologias também diferentes.

  1. Retaliar: aplicar pena de talião* ou infligir castigo análogo ao recebido; vingar ação ou ofensa sofrida; revidar. Procede do latim retaliãre, que significa castigar com pena de talião*, isto é, pagar na mesma moeda.

*Talião 1) termo jurídico: aplicação a uma pessoa do mesmo dano que haja causado a outrem;  lei ou pena de talião (tal crime, tal pena) 2) por extensão, qualquer vingança em proporção igual ou considerada equivalente ao mal sofrido. Etimologia: do latim talis “tal, igual”.

De retaliar, tem-se retaliação (vingança, desforra). Exemplos:

Em nota, Irã reitera que ataque foi retaliação à morte de Soleimani.

Impacto da crise do Oriente Médio depende da retaliação do Irã, diz especialista.

  1. Retalhar: cortar em pedaços ou em retalhos; golpear com instrumento cortante; efetuar separação, dividir; vender a varejo, a retalho. Etimologia: re + talhar (cortar, separar, rasgar).

De retalhar, tem-se retalhação (ato ou efeito de cortar em retalhos; sulcagem, dilaceramento, despedaçamento), mas de uso muito pouco frequente.

 

 

Seu, sua, seus, suas, como evitar ambiguidades produzidas por esses pronomes?

O uso dos pronomes possessivos de terceira pessoa seu, sua, seus, suas pode dar lugar a sentidos ambíguos, como no exemplo a seguir:

João, Pedro saiu com o seu carro.

Aqui o pronome seu não esclarece de quem é o carro, se de Pedro ou de João.

Para evitar a confusão, em situações como essa, substitui-se o pronome causador da ambiguidade (seu) por dele, dela, deles, delas, do senhor, etc., que deixam explícito o possuidor.

Se o carro for de Pedro, poderíamos dizer:

João, Pedro saiu com o carro dele.

Se o carro pertencer a João:

João, Pedro saiu com o carro do senhor.

Assim, mesmo que o contexto de uso possa desfazer possíveis ambiguidades, em textos escritos, é aconselhável evitar o emprego dos pronomes possessivos seu, sua, seus, suas sempre que houver qualquer possibilidade de mais de uma interpretação. O leitor agradece.

Aliás, na revisão de textos de diferentes gêneros, mais particularmente em narrativas de iniciantes, tenho constatado um emprego excessivo desses pronomes; na maior parte das vezes, desnecessários. Nesses casos, basta uma leitura atenta para eliminar todos os pronomes (e outros termos) não necessários.

SEXTOU, SEGUNDOU…

Sextou e segundou exemplificam um fenômeno linguístico de criação de novas palavras conhecido como neologismo.

Há dois tipos de neologismos. O primeiro, conhecido como neologismo lexical, consiste em formar palavras novas a partir de outras já existentes. Exemplo: sextou, verbo derivado de “sexta” (feira), que passou a ser empregado para dizer que chegou a sexta feira, que é dia de sair com os amigos, de ir a um happy-hour, de descansar, entre outros sentidos.

O segundo, conhecido como neologismo semântico, consiste na atribuição de novos sentidos a palavras já existentes. Exemplos: bico e corneta. Exemplos: Muitos desempregados sobrevivem de bicos. Apesar da corneta, continuou defendendo o time.

 

Sextou e segundou, palavras que têm origem na linguagem mais informal, vão ganhando espaço inclusive na linguagem de repórteres para anunciar o fim e o início de semana, respectivamente. Como outros neologismos, o emprego dessas palavras vem constituindo um modismo em linguagem. As redes midiáticas são as principais responsáveis pela divulgação de modismos. Alguns desaparecem depois de algum tempo; outros acabam se incorporando ao léxico da língua.

O processo de formação de novas palavras é da própria natureza das línguas que, por meio de elementos já existentes (radicais, prefixos e sufixos), possibilitam infinitas combinações das quais resultam novos sentidos.

Há dois processos básicos de formação de novas palavras: 1) a derivação, que consiste em formar uma nova palavra a partir de outra, com acréscimo de prefixos, sufixos, ou desinências verbais. É o caso de sextou e segundou, palavras que receberam o acréscimo da terminação verbal “ou2) a composição, que consiste em juntar duas ou mais palavras ou partes de palavras (radicais) para formar uma nova. Exemplos: papamóvel; operação-desmonte.

A motivação para a criação de novas palavras pode vir da necessidade de nomear algo ou um fenômeno novo, mas também pode atender a uma função expressiva ou estética, como o fez Guimarães Rosa, na Literatura.

 

Tinha ou tinham muitas pessoas na feira?

Embora, em gramáticas normativas, não apareça na lista dos verbos impessoais, ter vem sendo empregado, há muito tempo, no lugar de haver impessoal. E, nesse sentido, torna-se também impessoal.

Exemplo:

Não TINHA sinais de arrombamento (em lugar de Não HAVIA sinais de arrombamento). Ambos impessoais, isto é, sem sujeito, por isso permanecem na terceira pessoa do singular.

Então, respondendo à pergunta do título, o correto é TINHA muitas pessoas na Feira (= HAVIA muitas pessoas na Feira).

Poder-se-ia dizer que o emprego de TER por HAVER revela uma linguagem mais informal, mas o certo é que se trata de um uso já consagrado. Fazer a opção por um ou por outro é apenas uma questão de maior ou menor formalidade, mas a concordância deve ser respeitada em ambos os usos. Exemplos:

Houve muitos imprevistos (ou Teve muitos imprevistos)

Havia ruas bloqueadas. (ou Tinha ruas bloqueadas)

Haverá vida em outros planetas? (ou Terá vida em outros planetas?)

Vale, então, lembrar:

TER e HAVER, quando empregados no sentido de EXISTIR, são verbos impessoais, isto é, não têm sujeito. Se não possuem sujeito, não podem receber flexão de plural, devendo permanecer na terceira pessoa do singular.

Atenção às locuções verbais:

Quando os verbos impessoais são empregados junto com outro verbo (verbo auxiliar) esse também fica no singular. Exemplo:

Vai  haver muitas sessões de autógrafos. (ou: Vai ter  muitas sessões de autógrafos).

Aqui o verbo “ir” (vai) foi empregado como verbo auxiliar, formando as locuções impessoais “vai haver” e “vai ter”, por isso ficou no singular.

Debaixo, de baixo ou embaixo: qual a diferença?

São três vocábulos parecidos, mas não sinônimos. Iniciemos pelo significado básico dicionarizado:

1) Debaixo: advérbio.

a) em posição verticalmente inferior a algo ou a alguém. Compõe a locução adverbial debaixo de. É normalmente substituível pela preposição sob.

Exemplo:

Não havia nenhum vestígio de vida debaixo dos escombros. (= sob os escombros)

b) metaforicamente, pode significar em posição inferior, na dependência de.

Exemplo:
Os soldados agem debaixo das ordens da instituição. (= sob as ordens da instituição, isto é, na dependência da instituição)

2) De baixo: Locução adverbial. Trata-se de uma construção que assume sentidos diferentes de “debaixo” (junto).

Exemplos:
Olhou-a fixamente de baixo para cima. (expressa movimento)
Colocou os mantimentos na parte de baixo do armário. (na parte inferior)

3) Embaixo: advérbio.

c) Situado em ponto ou plano inferior.

Exemplos:
A garagem do prédio fica embaixo. Não havia nada embaixo da cama. Há algo estranho lá embaixo.

4) Em baixo: Pode aparecer separado, mas somente quando baixo (adjetivo) qualifica um substantivo.

Exemplos:
Desenho produzido em baixo relevo.
Manifestou-se em baixo tom de voz.

5) Há ainda o advérbio abaixo (que se opõe ao advérbio acima).

O apartamento reservado fica três andares abaixo da suíte presidencial. (A suíte presidencial fica três andares acima).

Dica:

Em caso de dúvida quanto à grafia, vale prestar atenção às oposições:
de baixo/de cima
embaixo/em cima
abaixo/acima

Nota:
É importante destacar que a diferença de significado entre embaixo, debaixo e abaixo deve-se à própria formação das palavras (em + baixo; de + baixo; a +_ baixo). Ou seja: embora sejam todos vocábulos que se formam a partir de “baixo” e, em alguns contextos, tenham significados muito parecidos, há sempre uma sutileza semântica que os diferencia. Essa sutileza deve-se à proposição: em, de, a. Se significassem exatamente a mesma coisa, não haveria razão para a existência dos três vocábulos. Bastaria um.

 

 

Bravo ou brabo?

Ambas as palavras existem na Língua Portuguesa e ambas podem ser empregadas para expressar significados como feroz, danado, irritadiço, rígido, tempestuoso, agreste e outros similares.

No entanto, em outros contextos, bravo diferencia-se de brabo, assumindo valores semânticos positivos, como notável, admirável, destemido, entre outros.

Vejamos os principais sentidos possíveis:

Brabo: feroz, danado, irritadiço, rígido, tempestuoso, agreste; que tende a se envolver em rixas, brigão, valentão.

Bravo: pouco ou nada domesticado (diz-se de animal); brabo, feroz, selvagem; enfurecido, irado, danado. Mas também pode significar: Digno de admiração; notável, celebrado; íntegro, honesto; generoso, humanitário. Destemido, valente, corajoso. Bem vestido, airoso, ornado com luxo (Ex.: Um bravo cavaleiro).

Assim, podemos dizer, indiferentemente.

Ele ficou muito brabo ou bravo, porque encontrou o carro novo arranhado.

Cuidado! É um animal muito brabo ou bravo.

É um homem muito brabo ou bravo. Até os filhos o temem.

 

Mas empregamos apenas bravo em contextos que expressam valor semântico positivo:

Ele é um bravo soldado, por isso merece o reconhecimento da comunidade.

Meu avô foi um bravo imigrante.

 

Com os substantivos derivados dos adjetivos brabo e bravo ocorre a mesma coisa:

Brabeza (brabo+-eza): ferocidade, irritação. Ou seja, assim como ocorre com o adjetivo brabo, o substantivo brabeza expressa apenas valores semânticos negativos.

Braveza (bravo+-eza): bravura, valentia coragem. Mas também: ferocidade, selvageria, violência.  Ou seja, como ocorre com o adjetivo bravo, o substantivo braveza pode expressar tanto valores semânticos positivos quanto negativos. O contexto de uso é que vai definir o sentido.

Exemplos:

É uma pessoa irritante. Ninguém aguenta sua brabeza.

Foi um grande herói! A História reconhece sua braveza.

 

Observação:

Bravura é sinônimo de braveza e, como tal, também pode expressar tanto sentidos positivos quanto negativos: coragem, destemor, valentia; mas também: ferocidade, selvageria, violência, etc.

Exemplos:

As narrativas de suas bravuras empolgaram os ouvistes.

A bravura do mar assustou os marinheiros.