Letra maiúscula ou minúscula?

Estado do Rio Grande do Sul ou estado do Rio Grande do Sul?

Avenida Ipiranga ou avenida Ipiranga?

Rua José de Alencar ou rua José de Alencar?

Travessa Santo Antônio ou travessa Santo Antônio?

Dúvidas em relação ao emprego de letra inicial (maiúscula ou minúscula) em usos como os anteriores são muito comuns.

Vejamos as orientações:

1) Estado e estado:

a) Usa-se letra inicial maiúscula, Estado, para designar a instituição, ou seja, um país soberano, politicamente organizado. Exemplo:

O Estado brasileiro só adquiriu sua independência em 1822.

Da mesma forma, usa-se letra maiúscula para designar o conjunto das instituições que controlam e administram uma nação ou um estado. Exemplos:

A máquina política do Estado. É dever do Estado zelar pela saúde pública.

b) Usa-se letra inicial minúscula, quando se faz referência a uma unidade da divisão territorial. Exemplo:

O estado do Rio Grande do Sul tem temperaturas baixas no inverno.

A capital do estado de São Paulo abriga mais de 12 milhões de habitantes.

2) Avenida, rua, travessa, praça…

Segundo o Acordo Ortográfico, é facultativo o uso da inicial maiúscula em nomes indicativos de logradouros públicos (praças, avenidas, ruas, travessas, edifícios, templos…), ou seja, esses substantivos podem ser grafados indiferentemente com inicial maiúscula ou minúscula:

Mora na Avenida Ipiranga (ou na avenida Ipiranga).

Mora na Rua José de Alencar (ou na rua José de Alencar).

Mora na Travessa Santo Antônio (ou na travessa Santo Antônio).

Esteve na Igreja São Pedro (ou na igreja São Pedro).

Trabalha no Edifício Santa Cruz (ou no edifício Santa Cruz).

Nota: É justificável o estranhamento da possibilidade de uso de letra minúscula em nomes de vias e lugares públicos, uma vez que antes do Acordo Ortográfico vigente a norma era o uso de inicial maiúscula.

Entre eu e o ministro ou entre mim e o ministro?

Resposta: atualmente ambas as formas são aceitas mesmo na língua escrita.

Por que a dúvida?

Porque, pela recomendação tradicional, os pronomes pessoais retos¹ “eu” e “tu”, por exercerem, a rigor, função de sujeito (e excepcionalmente de predicativo), não deveriam ser empregados após uma preposição. Como “entre” é uma preposição, seria preciso empregar mim, que é o pronome oblíquo² correspondente. Acontece, no entanto, que as línguas evoluem com o tempo, porque novos usos vão se consagrando. Os gramáticos mais atentos às mudanças linguísticas obrigam-se, então, a aceitar tais usos como válidos, flexibilizando regras que orientam mesmo o uso mais formal da língua.

Para exemplificar essa flexibilização, vejamos como o assunto em questão é tratado em duas gramáticas:

Moderna Gramática Portuguesa (Evanildo Bechara):

“A língua exemplar insiste na lição do rigor gramatical, recomendando […] o uso dos pronomes oblíquos tônicos: Entre mim e ti. Entre ele e mim.” E continua: “Um exemplo como Entre José e mim dificilmente sairia hoje da pena de um escritor moderno”.

Gramática Houaiss da Língua Portuguesa (José Carlos de Azeredo):

“Construções como entre mim e você, entre ela e mim, entre ti e mim tradicionalmente recomendadas pela preceptiva gramatical, são cada vez mais estranhas ao uso brasileiro, mesmo na modalidade escrita. As formas praticadas no Brasil pelos próprios usuários cultos são entre eu e você, entre ela e eu, entre você e eu, com o tu no lugar de você nas variedades em que o tu é a forma usual”.

Cabe, no entanto, a ressalva de que se o estudo for para provas de concursos é preciso seguir a bibliografia indicada, porque, dependendo da banca que elabora a prova, a exigência pode ser ainda a das gramáticas mais antigas, cujos autores já não estão mais vivos para atualizá-las.

Notas:

  1. Pela tradição gramatical, a denominação pronomes pessoais retos (eu, tu, ele, nós, vos, eles) designa os que normalmente funcionam como sujeito da oração e, raras vezes, como predicativos. Exemplo: em Eu não sou ele, temos respectivamente as funções de sujeito (eu) e de predicativo (ele).
  2. Os pronomes pessoais oblíquos (me, mim, comigo, te ti, contigo, o(s), a(s), lhe, nos vos, lhes) são os que são empregados na função de complemento. Em Não lhe dissemos nada, lhe assumiu a função de complemento do verbo dizer; em  Convidou-os para um jantar, o pronome os exerce a função de complemento do verbo convidar.

Obs.: Os pronomes retos, quando preposicionados, também podem exercer função de complemento, como em Referiu-se a ela com carinho. Neste caso, o pronome ela, precedido da preposição a tornou-se um pronome oblíquo.

Quando usar corretamente LHE e LHES

São muito comuns erros no emprego desse pronome em usos como o seguinte:

Jamais lhe procurei.

Por que esse uso não é correto?

Por uma razão simples: lhes e lhes só podem ser empregados para substituir complementos verbais preposicionados, como nos exemplos abaixo:

  • Enviou-lhes um convite. (enviou a eles, aos amigos, aos colegas,)
  • Entregaram-lhe a encomenda. (entregaram a você, à avó, à colega, etc.)
  • Disseram-lhes que não virias. (disseram a eles, a elas, aos familiares, etc.)
  • Nada lhe contaram a respeito da doença. (nada contaram ao doente, ao chefe, à família)
  • Não podemos lhes oferecer nada além de palavras de conforto. (oferecer aos doentes, aos familiares, etc.)
  • Devia-lhes obediência. (devia obediência aos pais, aos superiores, etc.)

Note que o pronome LHE(S) normalmente é empregado com verbos que exigem dois complementos, mas substitui sempre o complemento com preposição que equivale a “a alguém” ou “para alguém”.

Enviou algo a alguém; entregaram algo a alguém; disseram algo a alguém; contaram algo a alguém; devia algo a alguém.

Na frase acima – Jamais lhe procurei -, percebemos que o lhe não pode ser substituído por a “a alguém”. Diríamos: Jamais procurei alguém e não a alguém. Ou seja: o verbo procurar exige um complemento não preposicionado, por isso não é substituível por lhe.

Empregando corretamente o pronome teremos:

Jamais o procurei ou jamais procurei você.

Resumindo: só use LHES(S) para substituir complementos de verbos que poderiam ser substituídos por a alguém. (Para quem lembra as regras de gramática, LHE(S) serve para substituir objeto indireto).

Observe que, nas frases 4 e 5 acima, o pronome está antes do verbo por atração dos advérbios nada e não, respectivamente. (Na terminologia gramatical, diz-se que ocorre a próclise)

Apenas a título de curiosidade: LHE(S), além de substituir complemento verbal preposicionado, pode ser empregado em lugar de dele(s), dela(s) indicativos de posse, como nos exemplos abaixo.

Roubaram-lhe os documentos. (= os documentos dele ou dela).

Tocou-lhes o rosto. (= o rosto deles ou delas).

Mas em construções como essas não preocupam, porque não há possibilidade de erro.

Preposição antes de pronome relativo

Na linguagem falada, é muito frequente a omissão da preposição (quando necessária) que deveria preceder o pronome relativo, como nos seguintes exemplos:

A fruta que mais gosto é a maçã.

A única coisa que necessito é tempo.

São promessas que podemos duvidar.

“Oferecemos um conteúdo que você pode confiar.”

Trata-se de um uso aceitável na fala. Mas na escrita, que normalmente exige um padrão mais formal, o “que” dessas frases deve vir precedido pela preposição exigida pelo verbo: gostar de, necessitar de, duvidar de, confiar em.

 A fruta de que mais gosto é a maçã.

A única coisa de que necessito é tempo.

São promessas de que podemos duvidar.

Oferecemos um conteúdo em que você pode confiar.

Observação: Como entrou a preposição, o pronome que pode ser substituído por o qual, que flexiona para concordar com seu antecedente:

São promessas das quais temos que desconfiar.

Oferecemos um conteúdo no qual você pode confiar.

Lembrete: Sempre que tivermos orações construídas com pronomes relativos (que, quem, o qual…), é preciso verificar a regência do verbo. Se o verbo exigir um complemento preposicionado, a preposição “volta atrás” e se aloja antes do pronome relativo.

 

 

De pé ou em pé?

Ônibus não poderão circular com passageiros de pé ou em pé?

As duas formas estão corretas quando se quer designar algo ou alguém que está em posição vertical. Exemplos:

Tivemos que permanecer em/de durante toda a cerimônia.

A plateia aplaudiu de/em o orador.

A criança já consegue ficar em/de .

Apesar do vendaval, todos os poste se mantêm de/em pé.

O próprio dicionário Houaiss da Língua Portuguesa apresenta as duas expressões como sinônimas: de pé, 1 em posição vertical, em pé.

Portanto, ambas as frases estão corretas.

Ônibus não poderão circular com passageiros de pé.

Ônibus não poderão circular com passageiros em pé.

Vale destacar também o segundo sentido, apresentado pelo dicionário, para a expressão de pé,: 2 de acordo com o combinado (Nosso trato está de pé).

A expressão de pé, empregada nessa acepção, ou seja, com o sentido de estar “de acordo com o combinado”, no exemplo do dicionário, aparece com a preposição “de” (Nosso trato está de pé), de onde se pode concluir que essa é a mais adequada. No entanto, já é muito comum encontrar a preposição “em” em lugar de “de”, também quando o sentido da expressão é esse segundo.

QUE ou O QUAL?

Para não repetir determinadas palavras (uma preocupação às vezes exagerada), é muito frequente encontrar em textos o emprego de O QUAL e suas flexões (os quais, a qual, as quais) em lugar de QUE.

Quando empregar adequadamente um e outro?

Vejamos.

O QUAL

Pode-se empregar o qual (e suas flexões) em dois contextos:

1) Quando precedido de uma preposição ou de  locução prepositiva. Exemplos:

Levou consigo apenas objetos sem os quais não poderia sobreviver. (preposição “sem”)

Várias autoridades às quais foram dirigidas perguntas preferiram calar-se. (preposição “a”, que se contraiu com o “a” do pronome)

A morte é um tema sobre o qual deveríamos refletir. (proposição “sobre”).

Os amigos com os quais costumas sair estão te aguardando. (preposição “com”)

Tudo aconteceu naquele encontro durante o qual houve inúmeros desentendimentos. (preposição “durante”)

É um sábio perante o qual deveríamos nos curvar. (preposição “perante”)

São recipientes de barro dentro dos quais eram conservados os alimentos. (locução prepositiva “dentro de”)

É um assunto a respeito do qual não gostaria de conversar. (locução prepositiva “a respeito de”)

 2) Quando  há necessidade de identificar com clareza o antecedente, ou seja, para evitar possíveis ambiguidades, como na frase abaixo:

Refiro-me à situação das escolas públicas, que todos conhecemos bem.

Conhecemos bem a situação ou as escolas públicas?

Desfazendo a ambiguidade:

Refiro-me à situação das escolas públicas, a qual todos conhecemos bem. (se a referência for “situação”).

Refiro-me à situação das escolas públicas, as quais todos conhecemos bem. (se a referência for “escolas públicas”).

QUE

Dá-se preferência a que em todos os demais contextos em que não ocorre a preposição.

Não se aconselham, por exemplo, empregos como os seguintes:

*Terminei de ler o livro o qual você me emprestou.

É mais adequado: Terminei de ler livro que você me emprestou.

Observação: Mesmo havendo preposição, em muitos casos, também é possível empregar QUE. Exemplos:

O time pelo qual torço está classificado.

Ou: O time por que torço está classificado.

As frutas das quais eu mais gosto têm um preço elevado.

Ou: As frutas de que eu mais gosto têm um preço elevado.

DICA:

Estilisticamente, é preferível repetir QUE (uma espécie de curinga) a empregar O QUAL (e suas flexões) sem que o contexto linguístico o exija.

Nós mesmos ou nós mesmo?

A dúvida:

Mudar depende de nós mesmos ou de nós mesmo?

Resposta correta: Mudar depende de nós mesmos.

Por quê?

Porque “mesmo”, nesse contexto, tem uma função adjetiva e como tal deve concordar em gênero e número com o pronome que o antecede. Exemplos:

Mudar depende de ele mesmo; … de elas mesmas; … de tu mesmo ou de tu  mesma (se a referência for feminina) ; … de  vocês mesmos ou de vocês mesmas (se a referência for feminina) .

Nós mesmos (ou nós mesmas) fizemos todo o planejamento. Ele mesmo (ou Ela mesma) fez todo o planejamento. Eu mesmo ou eu mesma, etc.

Nesse sentido, equivale a “próprio”; é usado como um reforço à identificação feita pelo pronome que o antecede. Poderíamos perfeitamente dizer apenas mudar depende de nós, ou nós fizemos todo o planejamento, etc,  mas não teríamos a mesma ênfase.

 Quando MESMO fica invariável?

Quando empregado em duas outras funções:

  • Na função de advérbio, equivalendo a até, que pode denotar uma espécie de limite ou inclusão. Exemplos:

Mesmo as pessoas que se diziam amigas agora lhe viram o rosto.

Mesmo seus irmãos o abandonaram.

  • Na função de conjunção concessiva, equivalendo a embora, ainda que. Exemplos:

Mesmo derrotados, mostraram-se satisfeitos. = Embora derrotados, mostraram-se satisfeitos.

Quarentena de 14 dias?

Embora a palavra quarentena remeta, mais comumente, à ideia de “quarenta”, soando um pouco estranhas combinações como “quarentena de 14 dias”, há muito tempo passou a assumir outros significados. De origem não exatamente definida (provavelmente, do Francês quarentaine, por volta de 1180-1190), foi inicialmente empregada para designar um período de 40 dias.  Há registros de que, por volta de 1635, já era usada com sentido de “período de isolamento de quarenta dias imposto aos viajantes para evitar a disseminação de doenças contagiosas”.

No entanto, uma busca a um dicionário (aqui Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa) nos fornece vários significados, entre outros os seguintes:

  1. Porção ou número de quarenta coisas (Mandou comprar uma quarentena de presentes de Natal); 2. Conjunto de medidas e restrições que consistia especialmente no isolamento, durante certo tempo (na origem 42 dias), de indivíduos ou mercadorias provenientes de regiões onde grassavam epidemias de doenças contagiosas; 3. por ext., conjunto de restrições e/ou isolamento por períodos de tempo variáveis, impostos a indivíduos ou cargas procedentes de países em que ocorrem epidemias de doenças contagiosas; 4. fig.  Isolamento de algo ou suspensão de um processo; ato de adiar  (Pôs os poema de quarentena  antes de decidir se iria publicá-lo).

Percebe-se, assim, que embora em alguns usos a palavra ainda esteja ligada à ideia de “quarenta” coisas ou indivíduos, em outros, o sentido de conjunto de restrições e isolamento se sobrepôs à significação inicial.  É dessa forma que podemos dizer quarentena de 14, 18 ou, seja lá qual for o período, sem constrangimento.

Vale  aqui lembrar que as línguas não são estáticas. Evoluem com o tempo pelo uso que fazemos delas. Suas unidades mais concretas, as palavras, evoluem tanto na forma quanto na significação, porque são como esponjas que absorvem do social sua substância. Em relação à sua significação, as palavras podem manter relação com o sentido original (o etimológico), mas com o passar do tempo também vão assumindo outras significações. A palavra “quarentena” é um bom exemplo, porque em alguns contextos guarda a memória de “quarenta”, em outros não mais.

Haja vista ou haja visto?

Haja vista é uma locução invariável, empregada no sentido de Veja, leve-se em conta, considere-se. Exemplo:

A crise econômica ainda é grave, haja vista os altos índices de desemprego.

Mas há duas outras possibilidades, embora menos usuais:

  1. Com o substantivo precedido de preposição a. Exemplo:
    Haja vista às questões sociais. Haja vista aos problemas.
  2. Ainda menos comum, porém possível, temos a locução Haja em vista, empregada no sentido de Tenha-se em vista, vise-se. Exemplo:
    É inocente, haja em vista a argumentação do advogado.

Consequentemente, com os sentidos acima, seria um erro empregar haja visto.

Quando, então, pode-se empregar haja visto?

Haja visto é uma locução verbal formada pelo verbo auxiliar haver  na 1.ª ou na 3.ª pessoa do singular do presente do subjuntivo (haja), mais o particípio do verbo principal ver (visto). Mas esta estrutura verbal é pouco utilizada, sendo mais comum a locução verbal formada com o verbo auxiliar ter: tenha visto.

Exemplo:

Suponho que ela haja visto o filme com as amigas. (= Suponho que ela tenha visto o filme com as amigas).

Portanto, só está correto o uso de haja visto, quando é possível a substituição por tenha visto.

Retaliar e retalhar

Trata-se de duas palavras homófonas, isto é, de duas palavras de pronúncia semelhante, porém de significados diferentes, uma vez que têm etimologias também diferentes.

  1. Retaliar: aplicar pena de talião* ou infligir castigo análogo ao recebido; vingar ação ou ofensa sofrida; revidar. Procede do latim retaliãre, que significa castigar com pena de talião*, isto é, pagar na mesma moeda.

*Talião 1) termo jurídico: aplicação a uma pessoa do mesmo dano que haja causado a outrem;  lei ou pena de talião (tal crime, tal pena) 2) por extensão, qualquer vingança em proporção igual ou considerada equivalente ao mal sofrido. Etimologia: do latim talis “tal, igual”.

De retaliar, tem-se retaliação (vingança, desforra). Exemplos:

Em nota, Irã reitera que ataque foi retaliação à morte de Soleimani.

Impacto da crise do Oriente Médio depende da retaliação do Irã, diz especialista.

  1. Retalhar: cortar em pedaços ou em retalhos; golpear com instrumento cortante; efetuar separação, dividir; vender a varejo, a retalho. Etimologia: re + talhar (cortar, separar, rasgar).

De retalhar, tem-se retalhação (ato ou efeito de cortar em retalhos; sulcagem, dilaceramento, despedaçamento), mas de uso muito pouco frequente.